Friday, July 14, 2006

clave de sol

os olhos dela ficaram repentinamente vermelhos e contraídos.

não foi da claridade que inundou a sala ampla, branca, muito branca.
ele entrou mas não a reconheceu.
e ela decorara-lhe todos os traços. anos passados, histórias por trocar.

os olhos dela ficaram repentinamente vermelhos e contraídos. e as lágrimas escorreram pelo rosto, pelo pescoço, pelo decote. lágrimas quentes. intrometidas.

esqueceu-a. desapareceu-lhe o gosto dela, o cheiro que ele amava.
olhou-a dentro dos olhos. o cabelo estava diferente, o corpo mais magro, as roupas mais claras.
esqueceu os seus olhos doces.


vermelhos.


contraídos.


em frente dela tudo desaba. as paredes, o tecto , o candeeiro de lustre em cima do piano. tudo desaba. cal e pó. ela não sente os tijolos que se partem na sua cabeça. não vê os estranhos cortarem-se nos vidros das janelas.


grita. mas não se ouve qualquer som.

porque naquele momento

o mundo vai acabar.

Sunday, June 25, 2006

dançar todos os dias

há ciclos que nos puxam e engolem. mergulhamos já sendo tarde demais para recuar, tornando-nos numa espécie de placas de ferro que são atraídas por um íman invisível.
milhares de placas de ferro fininhas e esvoaçantes que circulam à deriva na ventania de todos os dias. chocamos uns contra os outros nesta dança e às vezes, quando o embate é forte, cortamo-nos.

voamos perdidos a tentar encontrar um centro de equilíbrio, uma calma que nos inunde e nos transforme em carne e osso.

há dias brilhantes que nos pendem ao chão, momentos que nos fazem olhar de lado e com estranheza o ciclo de remoinhos e ventos fortes. não entramos, mas sabemos que inevitavelmente lá regressaremos.

Saturday, June 17, 2006

primavera

pergunto-te se ouves o vento lá fora a beijar as folhas dos limoeiros. dizes-me que não são limoeiros mas sim laranjeiras e que o vento não beija ninguém.

aperto-te a mão com muita força para te magoar.

os dias são longos, sem fim. não há horas, mas um tempo que passa lentamente que escurece e amanhece. os rochedos estão cobertos com terra cor-de -laranja e as gaivotas gritam e morrem por peixe. gaivotas que nascem no mar e se afogam de seguida.
o vento é morno lá fora e nós do lado de dentro num espaço azul, a espreitar a rua pelos vidros embaciados. nós pelos cantos, sossegados, numa paz silenciosa.

apertamos as mãos muito forte.

e eu nunca te vi tão sereno, e tu nunca me viste a olhar-te tão dentro dos teus olhos.
a nossa respiração perdida e deambulante a colar-se às paredes.

apertamos as mãos muito forte.

não sei se acorde ou se estou acordada desde sempre a sentir os ossos dos teus dedos finos que continuo a apertar cada vez com mais força.

Tuesday, May 30, 2006

mil formigas

sempre ouviram dizer que não há tempo, que o tempo passa a correr. eles ouviam, enquanto juntos ouviam, mas não ligavam. o tempo foge? onde ir buscar mais tempo? haveria sempre tempo para eles. para se rirem muito ou para ficar sossegados a olhar a rua.

ele era franzino e o seu amigo maior. pareciam ter 10 anos de diferença mas tinham a mesma idade. ele loiro, o amigo moreno, cabelos ondulados e ásperos.

e o tempo passou. a correr.
e também eles deixaram de ter tempo um para o outro.

encontraram-se há alguns dias numa rua cheia de gente, ambos acompanhados por lindas mulheres. os olhos ainda brilharam mas o tempo passou a correr mais uma vez e não conseguiram perceber naquele rápido minuto que afinal queriam estar mais tempos juntos.

cumprimentaram-se timidamente e sorriram.

"tudo bem?
tudo bem."

voltaram costas, andado em passo rápido, cada um a pensar que queria muito abraçar o outro. e rir rir muito aquelas gargalhadas só deles, e dizer um ao outro que afinal o tempo corre mesmo. sempre tinham razão

Saturday, May 20, 2006

shining

os olhos fechados, o corpo magro estendido na relva molhada. relva aparada. formigas e outros bichos passeiam por ali. fazem cócegas.
os olhos fechados, o sol a queimar as maçãs do rosto e os joelhos, o resto não importa.
o cabelo longo escorrido pela relva aparada. os olhos muito bem fechados. os sons ao longe, vento a bater nas árvores, vozes, risos, os bichos a comer folhas.

já não existo. um ponto sozinho no meio do verde. já não existes.

memórias perdidas em labirintos. juntar peças. misturá-las e inventar uma nova história.
ficar presa. ficar sempre ali. colar-me à relva. unir-me à terra molhada. entrar lá dentro e respirar e encontrar toupeiras.

regressar criança da terra molhada com bichos. criança que pinta que escreve com letras gigantes, que abraça que beija que olha. que olha nos olhos. leve.

Tuesday, May 16, 2006

promessa

e se eu te tivesse acordado nessa manhã com um beijo terno,
terias vindo comigo?

o mais certo seria olhares-me de soslaio, resmungares qualquer coisa e virares-te para o lado esquerdo. sentires o meu perfume deixado na minha almofada. a única recordação viva que te resta.

tu nem chegaste a ver-me nessa manhã, mas eu vesti aquela saia azul que parece de bailarina e que tu detestas. aquela que me faz parecer uma boneca de porcelana. inexpressiva. dizes que quando a visto comporto-me como tal.

fechei a porta com cuidado, porque afinal não saberia o que te dizer se tivesses acordado e quisesses vir comigo. foi por isso que não te dei um beijo terno na testa.

mas terias vindo comigo?

saí da nossa casa, fechei a porta pela última vez...
última.
será?

comprei uma garrafa de água fresca no café da esquina. das de meio litro.
irão perguntar à senhora que me atendeu a que horas passei ali, o que comprei, como me comportei. mas eu agi como uma verdadeira boneca de porcelana. inexpressiva. não sorri, não estremecei. porque sei que assim irás perceber que eu usava a saia azul de bailarina e que quem passou ali foi uma boneca muito direita, muito composta, muito azul. e assim talvez me encontres.

e sorrirás. eu sempre te disse, não foi? que um dia acordavas e eu já não estaria ali
nunca mais,
e que a almofada perfumada seria a única prova.

dir-te-ão que enlouqueceste. mesmo assim porás metade da cidade à minha procura, nos cafés, no meio dos livros, nas esculturas, atrás das árvores nos jardins.

e sorrirás.

bosque encantado

ela
tinha cabelo de fogo
queimava
os olhos eram duas azeitonas
enormes

ele
amava-a
era feito de mel
tinha as mãos sempre cruzadas atrás das costas

ela
punha folhas secas no cabelo
tropeçava nela própria

ele
sereno
amparava-a
e comia nozes que apanhava do chão

olhavam-se
eles
sorriam
amavam-se
secretamente
a menina fogo o menino mel

Wednesday, May 10, 2006

faz-me rir até de madrugada

e de repente lembras-te daquele dia, há muito tempo atrás, em que ias encontrar-te com ela só às nove da noite e em que ela te ligou de hora a hora - em ponto – até às oito da noite, só para te dizer que já só faltavam seis horas, cinco horas, quatro horas...
foi há tanto tempo. mas estás apensar nesse dia, assim de repente.
surpreende-te que ainda te lembres do vestido bege com flores pequeninas vermelhas que ela usava nessa noite. do perfume fresco a citrinos. da pele morena mais morena que no dia anterior, do seu sorriso rasgado do outro lado da estrada e do verde do semáforo que nunca mais caía. essa recordação assalta-te e não percebes porquê. faz tanto tempo que não a vês, que não a ouves, que nem sequer pensas nela.

foram ao cinema, riram muito e andaram a pé pela cidade deserta. sempre sempre de mãos dadas. mas não te lembras já do filme, nem das piadas que a fizeram rir tanto e nem das ruas por onde passaram. só o cheiro, a espera, as flores pequeninas vermelhas.